Abrindo os trabalhos

A Fuga é a nova montagem do Grupo Z e o projeto foi contemplado pelo Funcultura/SECULT 2016. Na peça, duas mulheres encarceradas participam de um plano de fuga.

Esse blog é um espaço onde as integrantes do grupo e mais cinco colaboradoras compartilharão registros e impressões sobre a nova montagem. É, também, uma ferramenta de aproximação com xs espectadorxs, propondo uma troca de ideias sobre o que mostraremos por aqui.

Em nossa trajetória, três eixos orientam o processo de criação: o corpo, a exploração de espaços diversos e a dramaturgia própria. A partir desses eixos nos movemos, nos repetimos, nos desdobramos pra novas possibilidades. A dramaturgia desse projeto é resultado desse contexto em que vamos nos formando e, sendo eu que aqui falo em nome do Z, a dramaturga iniciante, abro um parêntesis e falo por mim que esse texto só existe porque existe antes uma trajetória do Z, na qual estou inserida.

Esse trabalho continuado de pesquisa faz com que a gente sistematize algumas coisas, mas cada momento tem suas próprias exigências. Não é a primeira vez que criamos um blog, mas também não criamos um blog a cada novo processo. Apostamos então no que acreditamos ser uma necessidade para a realização de cada pesquisa.

Outra aposta do projeto são as colaboradoras que estão nos acompanhando. Patricia, que já é agregada ao grupo há mais tempo e mais a Alessandra, a Brenda, a Camila, a Luiza e a Maria Aidê. Seis mulheres maravilhosas, registrando, opinando, sugerindo, construindo com a gente. E, se somos mais mulheres no processo, o que nem é tão novidade assim no Z, aqui no blog a fala é exclusivamente nossa. E exclusividade, nesse caso, tem a ver com a construção de um espaço efetivo à democratização de conteúdo artístico e crítico produzido por mulheres.

Esperamos que a troca por aqui seja intensa como tem sido em nossos encontros!
Sejam bem vindxs!
Merda pra gente!

Protocolo #13 – Em Casa!

Subi pela estrutura de aço e andei pelo parapeito alto da janela para prender a cortina na esquadria. – uma ação com certo risco, devido as condições do espaço para fora da janela. Pergunto-me sobre a necessidade que tenho de criar poesia para gestos simples da vida, mas falo isso, porque estávamos todas esperando “o homem que estava acostumado a subir” para resolver para nós o problema. Porém, eu resolvi encarar essa eu mesma!

Essa questão acaba encontrando com o processo. Coisas que dialogamos. E fiz poesia feminista com o fato, claro.  A poesia fala do empoderamento simples ao qual me propus, de fazer a ação sem esperar “o homem que estava acostumado a subir”. – Esse mesmo homem que corre riscos e “nos livra” do perigo. O ato parece pequeno, mas, nas devidas proporções, não é! Assumir determinadas posturas e ações simples do cotidiano, “sem esperar o homem que está acostumado a fazer” tbm é uma forma de empoderamento. Portanto meninas, vão lá e façam vocês mesmas!

Neste dia falamos de sonoplastia. O protocolo da Brenda falava de teatro e técnicas. Penso: como uma formação acadêmica na área nos abre tantos olhares para a cena. –  a Brenda estuda Teatro na UVV.

Estou me sentindo em casa em A Fuga. Sinto-me integrada, ouvida, participando, devidamente atuante.  Estou feliz em participar da montagem.

Fizemos uma pausa no processo e voltamos uma semana depois. Muita gente doente. Falamos do pó preto de Vitória. Por este motivo, reiniciamos os ensaios em “low”, pois as meninas ainda estão indispostas. Tivemos a visita do Fernando, diretor de “Se Eu Fosse Iracema”. – e se eu fosse você, não perdia.

Fomos então no ritmo das meninas. Ficamos de “ver onde vai dar tudo isso”. E apesar de mais lento, o ensaio fluiu muito bem.

Já era quarta e estava chovendo. Agora quem adoeceu fui eu. Lemos o protocolo da Camila e partimos para o aquecimento.

Fiquei viajando na ideia da relação entre Khali e Exu, citada no protocolo da Cá. Alê sente necessidade de explicar que a ideia é toda sua. Não tem base em artigos ou estudos. Chegamos a conclusão de que sua opinião é muito livre neste sentido. Livre o pensamento, dispensa justificativas.

Já o protocolo de Luiza foi um soco no estômago! – no bom sentido! (oi?) No nosso, no da sociedade! Fizemos, involuntariamente um minuto de silêncio. Diria que foram séculos de silêncio. Uma bruta caída de fichas.

Estamos diante de uma questão muito séria que é a questão do sistema carcerário brasileiro, mas não se leva nada a sério. Sequer se para para pensar nestas pessoas, suas dores e urgências. Discutimos política. Falamos de conquistas e retrocessos. Pensamos em como o Brasil de hoje se parecia com o Brasil pré golpe de 1964 e como tudo foi culminando no Brasil de 68, o Brasil AI5, onde a liberdade foi cerceada a níveis alarmantes. Falamos ainda dos movimentos das ditas minorias que tem suas causas apropriadas pelo mercado, pelo marketing, distorcidas pela mídia e invisibilizadas pelo governo. Sinto-me amplamente representada pelas falas.

Yoga e Capoeira nos trazem de volta ao pragmatismo do processo. Passadão, da primeira cena até onde der. Daqui a pouco teremos ensaio aberto. Dia 04 de agosto. Ainda é quarta-feira. Ou já é quarta-feira. Minha vida está a mil. Tenho trazido o meu notebook para dar conta das coisas.

Hoje estavamos solidárias com Alê. Sussu, nossa bebê, estava querendo atenção da mamãe. Viajei de novo na ideia de ser mãe e ir ensaiar. Penso em mim, como atriz, como mulher. Fiquei pensando em como as ações da Alê em cena tem tanta verdade para  Sussu. Claro que houve um certo drama ao ver a mamãe contorcida com respiração ofegante. Compreensível! Rendemo-nos às lágrimas de Sussu e paramos tudo. Depois da pausa o ensaio avançou bastante, foram se dando as cenas.

Resolvemos fazer uma leitura das próximas construções e falamos sobre as gírias da prisão. As dubiedades sobre a expressão “dar um pino”. Tantas palavras novas, universo desconhecido. Estou tão distante destas mulheres representadas que tenho vontade de orar por elas. Talvez seja por minha sensação de impotência, tenho vontade de apelar para o abstrato.

Durante a leitura caímos numa discussão sobre o batom. Os tabus sobre o batom e o dilema de usar ou não usar. Lembrei quando era pequena, do batom da minha mãe que parecia um projétil. Falamos de batons vermelhos. Machismos relacionados ao Batom e relacionamentos abusivos. Abusos sutis. – se é que isso existe.

O assunto se estendeu. – Como sempre! O melhor, para mim, dos ensaios, são estas discussões louquíssimas depois. Seja leitura de protocolo, sejam discussões sobre a cena, sejam debates sobre o universo. É muita gente inteligente, criativa, crítica e política. E vou terminar, mais ou menos como comecei: me sinto em casa! Cada vez mais acolhida! É isso aí! Até a próxima!!

Protocolo #12

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Em fuga

Luiza Vitório


 

 

De um jeito mais simples eu posso afirmar que A Fuga é um processo de montagem que revela as mazelas de duas mulheres presidiárias que tentam fugir.

Ana e Mirela são a representação de uma porcentagem absurdamente crescente de acordo com as estatísticas de mulheres encarceradas neste país dito progressista e democrático. A cada novo encontro ensaio reunião eu percebo que estas duas personas simbolizam um mundo de pessoas não encarceradas de fato, mas simplesmente ( se é que é digno assim dizer) presas em si mesmas por esta sociedade retardada. Mulheres com suas obrigações santidade submissão e fragilidade e homens em seus estereótipos de homens, todos creio produzindo planos de fuga.

Invisíveis ou invisibilizados? Não sei, fato é que este brilhante texto tem desde o início dos ensaios exposto não só as muitas falhas do sistema carcerário feminino como também as feridas abertas desta sociedade falida. A Fuga é um texto extremamente incômodo e revelador .

O que eu sei é que este método legalizado de reabilitação prisional pouco ou quase nada reabilita ao que me consta resulta tão somente em destruir o que havia ou restava de humano naquelas que por algum motivo foram pegas pelos senhores da lei.

Eu sei que quem um dia sobreviveu ao Sofrimento corre o risco de mesmo fora das grades nunca mais sair do aprisionamento mental e físico. Eu sei que apesar das prisões serem justificáveis e justificadas o período de aprisionamento multiplica devido aos letárgicos trâmites do judiciário nacional. Eu sei que muitas ladras de leite e desodorante permanecerão em um sem fim de anos a espera do julgamento legalmente encarceradas enquanto socialite corruptas, patricinhas cleptomaníacas obtém seus habeas corpus em algumas horas.

Eu sei que a justiça é segregacionista.

E sinto que presos ou não estamos todos em fuga.

 

Protocolo #11 – (Pré-) julgamento de Ana, culpas e entre ficção e realidade

“Eu não aguentava mais apanhar”. Começo este protocolo sem ordem cronológica, talvez sem nenhuma ordem. Mas, para registro, digo que se refere ao que permeou as duas últimas quartas, já que pulamos a sexta por inviabilidade e por concordar que era necessário não viabilizar nada naquele dia. O rompante de Ana é seguido por uma narração que a personagem faz sobre o que a teria levado a estar onde está, em situação de cárcere, mas muito mais do que isso. Em que lugar está Ana? Em que lugar na vida? Como tantas outras mulheres, ela passou muito tempo / apanhando, já esteve / apaixonada, sentiu / medo, pensou / na filha, pediu / socorro, da maneira que conseguiu, guardou / suas marcas, empunhou uma faca.

Penso – e esta é uma opinião pessoal – que não buscamos, em A Fuga, explicitamente, justificar os crimes cometidos por mulheres que hoje estão presas, de modo generalizado, nem inocentá-las, salvá-las ou dar-lhes redenção. Para além desse julgamento, acredito em uma preocupação em humanizar o que é desumanizado, falar de pessoas, dar contextos, complexificar o que é complexo e que se insere em estruturas e parâmetros sociais perversos, machistas, opressores, excludentes e, na maioria das vezes, injustos em suas origens. O que é justo, senhores? Relativizar o olhar não é ser condescendente, é cavar mais fundo à procura de raízes. É falar da mesma coisa só que do tamanho que ela é. Qual o tamanho da coisa, senhores? Estamos descobrindo. Quantas testemunhas de Ana temos aqui? Muitas delas não estavam presentes hora nenhuma, mas com certeza sabem exatamente como foi a coisa toda, desde o começo até o final. Ana é muitas, quase foi muitas, ainda será muitas. E ainda que eu seja tentada a advogar a favor de Ana, não é esse o caso do espetáculo, e também não deixa de ser.

Saiu em A Tribuna desta semana uma reportagem especial sobre o cárcere feminino no Espírito Santo e, reforçando o que já havíamos levantado, a maior parte das mulheres presas está na cadeia por tráfico de drogas. Em vários casos, o tráfico surge de maneira indireta, através do cônjuge. Algumas delas, de outra forma, fazem questão de afirmar que se iniciaram sozinhas no tráfico, por “aventura”, sozinha, eu mesma quis, eu fui lá e fiz, a culpa é minha. Ainda que não seja o caso de Ana, em A Fuga (mas seja o caso de Mirela, no espetáculo), a personagem também traz o peso e a tristeza de uma culpa solitária. Um dos principais desafios do encarceramento feminino é a quebra dos laços familiares, uma vez que as visitas às mulheres são raras, nem de pai, nem de mãe, muito menos de cônjuge, ao contrário do que acontece nos presídios masculinos, com aquelas filas de… mulheres que vão visitar os presos. Outro peso dado à mulher presa é a responsabilidade por ser um péssimo exemplo de mãe. E essa mãe é punida tanto emocionalmente quanto fisicamente, ao ter os laços praticamente cortados com os filhos e, novamente, toda a culpa.

Fotos: Luiz Carlos Cardoso

Há vários outros aspectos do encarceramento feminino discutidos nos encontros de A Fuga. Neste momento da montagem, de volta a Ana, ela escreve uma carta para sua mãe. “Receber uma carta é que nem receber uma visita. Nos sentimos lembradas”. Ana também se preocupa com que sua filha não faça nada de errado, pra não ter o mesmo destino que a mãe.

Os tempos são dilatados. Um passadão recupera tudo que o que foi construído até agora no trabalho. O trabalho faz o grupo repensar sobre o próprio fazer. Observamos um daqueles momentos bonitos de se autoquestionar sobre suas práticas de trabalho, mesmo depois de 20 anos de existência como Grupo Z. A pergunta que fica é como aproveitar os estados gerados pela própria vida no trabalho de ator e atriz, isso no cansaço cotidiano, no corpo da atriz que é mãe e se divide como pode entre a maternidade e a vida na arte, mesmo quando não acha que esteja dando 100% em tudo – e isso seria possível? Quando tudo lá fora parece engolir a gente, quando dá desânimo, quando é muita coisa pra pouco tempo. Mas também quando parece ser urgente estar aqui, quando não fazer isso que insistimos em fazer é como silenciar a alma. Então, fazemos. E tudo se confunde, se mistura, mais uma vez, entre ficção e realidade, a vida “de fora” e a sala de ensaio, entre Ana e todas nós.

 

 

 

 

 

Protocolo “A fuga” – A plenos pulmões

[O primeiro parágrafo desse protocolo deve ser lido em voz alta e com apenas uma respiração. Na verdade você lê como quiser, mas caso aceite a sugestão segue um passo a passo que pode te ajudar. Preparação: respire fundo, enchendo seus pulmões com o máximo de ar possível. Não, para! Não é assim estufando o peito. Dessa forma você cria mais tensões no corpo do que se preenche com ar. Mantenha o corpo relaxado. Coloque as mãos nas costelas. Elas protegem seus pulmões, então eles estão mais ou menos por aí e você vai senti-los inflando como uma bexiga quando você respirar. Respire pelo nariz e solte o ar pela boca algumas vezes, até você começar a notar uma leve dilatação em suas costelas. Não se assuste! Isso são seus pulmões empurrando suas costelas, o que significa que você está expandindo sua capacidade respiratória. Exercício pra vida. Repita algumas vezes ao dia… pra sempre… sempre que puder. Agora que você já está tecnicamente apto para fazer a leitura, respira e vai!]

Coxinha estragada Insônia Açucena chora no ônibus Esgotamento Saltou antes da hora Foi convocada e não viu Novas crianças Visita do Fernando Camila atrasada Patrícia não vem Se eu fosse Iracema Todas as ruas têm nome de homem Alongamento Ioga Capoeira Aquecimento Boi Saudade da filha Saudade da mãe Saudade Saudade Saudade Vazio Solidão Medo Memória Distância Terra Suor Isolamento Silêncio.

Se você é um ser humano com capacidade respiratória mediana e fez a leitura em voz alta com apenas uma respiração, é provável que esteja se sentindo ofegante agora. Perceba como essa sensação reverbera em seu corpo. Nesse momento você, conscientemente ou não, já deve estar reestabilizando seu fluxo respiratório. Mesmo vivendo em uma cidade onde o pó preto – vulgo minério da Arcelor já é oficialmente parte integrante da composição do ar, a sensação de retorno a um fluxo respiratório estável continua sendo boa, certo? Ana e Mirela talvez não se recordem mais dessa sensação. Ana e Mirela estão sempre ofegantes. Na cadeia ofegante deixou há tempo de ser adjetivo para se tornar verbo. Verbo condenado a prisão perpétua no modo presente do indicativo. É isso que Ana e Mirela sentem na cadeia. E é provocando essa sensação de sufocamento que Carla e Alê iniciam a montagem, ali, dentro o túnel que suas personagens estão escavando para fugir. Onde falta ar, o que contraditoriamente está longe de parecer o essencial, já que falamos de duas mulheres privadas de muito mais além de oxigênio e liberdade.

Resgato então as vidas de Ana e Mirela e a sucessão de privações que as levaram até ali. De imediato penso em como vamos nos acostumando quase sem perceber a ter cada vez menos ar, cada vez menos respiro, cada vez menos espaço. Nosso corpo se adapta ou nos engana? Quando nos demos conta já estamos ofegantes. Mas como eu cheguei até aqui? Até que nos vemos obrigadas a abrir espaço. Cavar túneis. Ir em busca de ar. Respiradores artificiais não existem por aqui.

As palavras que você leu no parágrafo anterior são parte de tudo que vimos/falamos/ouvimos no encontro de quarta feira, 14 de julho, antes do ensaio de fato começar. Nossas tardes sempre começam com muita conversa e isso parece ser uma das únicas coisas das quais não queremos fugir nesse processo. Mesmo sem música, Carla e Alê investem em um aquecimento a partir da capoeira, que junto com a ioga já integra o processo de preparação das atrizes e de construção das personagens. Para mim, são como dispositivos que transferem para as personagens toda cumplicidade já existente entre as atrizes. A capoeira conduz essa “troca”, como se quase magicamente o jogo começasse entre Alê e Carla e terminasse entre Ana e Mirela. Quase sempre funciona… quase! Nesse dia tivemos corpos indispostos, que resistem não por teimosia, mas por cansaço. Bota linóleo. Tira linóleo. Para esse trabalho melhor assim, diz Carla. Pés e corpos no chão, ao trabalho!

Começamos o ensaio pela primeira cena. Quer dizer, pela primeira cena conforme ordenação feita pela dramaturga. O texto permite uma certa inversão entre a ordem dos acontecimentos. Tudo indica que a montagem siga por esse caminho. Mas por enquanto é isso: quando falo de primeira cena estou me referindo a cena inicial conforme apresentada no texto. Ana e Mirela estão no túnel, sentadas de costas e com respiração ofegante. Cansaço visível. Elas saem do túnel e iniciam um diálogo que perpassa por questões como a preocupação de uma com a alimentação da outra, e a necessidade de manter a “saúde” para o dia da fuga. Cansaço agora verbalizado. Ao repetir a cena algumas vezes as questões levantadas são: necessidade de não vitimizar excessivamente as personagens para que a narrativa não fique cansativa. Nesse momento, também se prioriza o cuidado com a relação das atrizes com o espaço, e não ainda com a ocupação do espaço como um todo. Além disso reforçamos a ideia de que as atrizes não precisam se olhar tanto durante o diálogo, com exceção dos momentos onde tal ato for necessário. Nos parece que em presídios os olhares estão quase sempre baixos. Olhar nos olhos é gesto que se guarda para “ocasiões especiais”, como roupa de missa que só pode ser usada quando se vai encontrar Deus. Deus não é visita muito comum onde Ana e Mirela estão. Talvez por isso lhes falte olhar.

As atrizes retornam para a posição inicial e retomam a respiração ofegante, como forma de transição para a próxima cena, onde Ana escreve uma carta para sua mãe. Nessa montagem, seu texto é intercalado com textos da cena seguinte, onde Mirela, escondida, faz uma ligação pelo celular. Aqui, uma das questões é encontrar formas para que as atrizes compartilhem os textos com todo público, que provavelmente estará distribuído em três dos quatro lados do espaço.

Fim da cena. Retomada das respirações, que serão um código de transição entre todas as cenas do espetáculo. Agora demos um salto na dramaturgia original e chegamos na cena onde Mirela confidencia um sonho para Ana. A partir do movimento a fala da atriz deve disparar, e não o contrário. Construções aparentemente simples mas que se tornam orgânicas apenas a partir do momento em que as respirações também se tornarem. Isso nos lembra que estamos em processo, a caminho. Ainda vamos chegar! Aqui se estabelece uma relação de cumplicidade que prepara o espaço pra cena seguinte, onde Ana relata o crime que cometeu. Ana caminha em círculos em torno de Mirela, que pontua o relato de Ana com comentários em sua defesa sempre que ela tenta se culpabilizar. Ana aqui me parece um misto de reflexão, culpa e apatia.

Finalizamos pensando na importância da utilização de tempos dilatados como dispositivo para inserir o público em um outro lugar. Tal elaboração está em consonância com a percepção do tempo nos presídios, que parece correr mais lento que o tempo “aqui fora”. Essa construção temporal na encenação diz sobre a história tanto quanto o próprio texto. E nos últimos instantes do encontro, cujo tempo corre em ritmo inverso ao proposto pela encenação, pensamos um pouco sobre o espaço cênico. Onde fica o público? Por onde o público entra? O que acontece nesse trajeto? Como o cenário pode contribuir com essa sensação de encarceramento? E o distanciamento? Fomos embora com poucas definições concretas e muitas propostas na cabeça. Creio que não caiba coloca-las aqui, já que não pretendo dar spoiler sobre a construção espacial de um espetáculo que ainda não estreou. Ou talvez ninguém do lado de cá ainda saiba exatamente como será. Talvez a resposta venha no próximo protocolo. Ou talvez você só descubra quando vier assistir ao espetáculo.

Depois de uma semana e meia parados, conseguimos nesse encontro nos dar conta de até onde chegamos. A agenda de ensaios foi mais uma vez “interrompida” por um feriado e uma sexta feira onde as atrizes se dedicaram a trabalhar o texto individualmente, sem a presença de todo coletivo que tem acompanhado o processo de montagem. De modo que esse protocolo trata dos encontros de duas quartas feiras, dias 14 e 21 de junho.

No dia 21 recebemos mais uma visita. Não lembro o nome da moça, espero que ela me perdoe já que assumiu também não ser boa com nomes. Camila leu seu protocolo e mais uma vez se instaurou a “energia reflexiva pós protocolos”, que nos visita religiosamente a cada leitura. Conversamos sobre Exu, Iansã, Shiva e outras divindades. Após o aquecimento das atrizes houve um exercício de leitura do texto da cena referente ao relato do crime da Mirela. Discutimos a necessidade de manter a rubrica indicada na cena. Mais uma vez somos pegos por reflexões sobre um processo onde a dramaturga participa da montagem como atriz e até que ponto isso influencia nas decisões tomadas na encenação.

Encerramos o encontro trabalhando novamente a cena onde Ana narra seu crime. Lembramos da necessidade de Alê crescer em intensidade a medida em que avança com o texto. Mantendo o deslocamento circular, a direção propõe que Carla gire junto com a espiral criada por Alê no decorrer do texto e que as duas estejam novamente juntas ao final da oração que entrecorta a narrativa. Juntas novamente, seria possível retomar o jogo de respirações que deve anteceder a cena seguinte. A direção atenta para que Carla resgate o tom mais grave para fala de Mirela e Alê cuide para que, ao iniciar o texto, o movimento conduza a fala ao invés do contrário, de modo a garantir que a cena se apresente de maneira mais orgânica. Experimentamos algumas repetições e sugestões de encaixes para os corpos, mas ainda é necessário experimentar, encontrar os elos para que esses corpos exaustos e ofegantes escorreguem, desabem um através do outro. As cenas dos crimes são densas, necessitam dessa energia de esgotamento. Duas mulheres cansadas. Dois crimes. Um túnel por cavar. Esgotamento não as falta, o que falta é ar. Para que o essencial um dia não falte, elas seguem cavando. Mesmo ofegantes, seguimos cavando. Até o dia em que gritar pelo essencial não seja mais necessário.

Protocolo 9 – Entre Améns

Faltei nos dois últimos ensaios, 24 e 26 de maio, por ter assumido um outro compromisso passageiro. Quando é quarta-feira, dia 31 de maio, me pego tranquila em casa planejando o que fazer já que a academia já tinha ido pro saco. Resolvo que nada. Mas não fico tranquila com isso. Como num estalo, lembro que é dia de ensaio. Saio desesperada para me arrumar e sair; aviso ao grupo sobre o atraso.

Não me dou com mudança de rotina. Levo um tempo para me habituar. Chego quase na hora do amém na Má Cia. Pergunto sobre o que rolou antes deu chegar e fico sabendo que Brenda leu o protocolo dela. As atrizes fazem o jogo de capoeira da Angola como aquecimento. Fico sabendo que, por necessidade de troca, o próximo protocolo é o meu.

Vamos para a cena “Eu matei pra não morrer” com nova partitura, a descrita no texto.

“Eu não aguentava mais apanhar” ecoa na minha mente… O diretor pede para que dilatem pós essa sentença. O movimento de círculo da Alê no ponto do quadrado riscado por giz no chão, que limita o espaço das personagens, me trás uma imagem poética. Matemática não é tão ruim assim, como 2 x 2 = 5 e não igual a 4. Divagações da semana anterior com Cacá Carvalho e Dostoiévski.

Pede-se para fazer uma leitura branca do texto, mastigando as palavras. Terminam girando. As duas orando, culminam no “Amém”. Anotei, não me lembro bem porquê: “brancura que não deixa transparecer”. Pode ser que tenha relação com a leitura branca do texto pedida anteriormente.

Na sexta, 02 de junho, começamos vendo um vídeo editado pelo Boone dos ensaios. Acelerado. Som que desperta apreensão. Começa-se a pesquisar sonoridades a partir de algumas referências de pesquisa anteriores da Alê. Passamos pelos mantras: OM. Vimos Kali que é tipo Exu da Índia e que faz oposição feminina ao Shiva, segundo a Alê. No clipe retratam teatralmente o corte das cabeças de homens, pergunto se específico de homens, mas não. Seu olhar fixo impõe medo e a língua do lado de fora nem de longe dá um ar descontraído. O mantra Mahakali surge, quando vamos ver estamos reproduzindo berimbau com OM, e não é que ficou bom?!

Pede-se uma caminhada menos solta, com pausas no texto onde a priori não há. Por exemplo: “Eu vi… a faca”. Observa-se que as marcações se perderam e que no próximo ensaio serão retomadas. Mas o “erro” na marcação da cena 2 me deu a ideia de uma acobertar o que a outra está fazendo de errado, que achei muito interessante com a proximidade, e que pode ser mantida a ideia, mesmo que não perto fisicamente.

 

Música Cara a Cara do Barão Vermelho:

https://www.youtube.com/watch?v=YUidUZkcD3g

Eu não estou aqui pra brigar com você
E nem pretendo mais me aborrecer
Embora eu ache que era a hora
Depois de toda essa demora
Que não foi capaz de me adormecer

Nossas almas gêmeas então mudaram de tom e cor
Nossa cela já não tem mais chave mas você ficou
No meio da sala perdida e só sem uma direção
E meio cansada de ver fugir num instante tudo que sonhou

E tudo que eu tentei fazer
Pra te ver mais feliz
E tudo que eu tentei esquecer
Eu fiz também por mim

Nossas almas gêmeas então mudaram de tom e cor
Nossa cela já não tem mais chave mas você ficou
No meio da sala perdida e só sem uma direção
E meio cansada de ver fugir num instante tudo que sonhou

E tudo que eu tentei fazer
Pra te ver mais feliz
E tudo que eu tentei esquecer
Eu fiz também por mim

Estamos agora cara a cara
Caímos numa armadilha rara
Sem alma sem sede e sem reação
Agora é tarde pra ter volta
Estamos ainda em nossa casa
Longe da alegria e mais perto da dor

E tudo que eu tentei fazer
Pra te ver mais feliz
E tudo que eu tentei esquecer
Eu fiz também por mim

Protocolo #8 24 e 26 de Maio

A leitura do protocolo anterior no início da semana é padrão.  Dessa vez voltamos aos escritos de Alessandra, isso significa que iniciamos um novo ciclo de protocolos. O iniciar desse ciclo foi pontuado com a questão de que sempre citamos: O quanto não falamos, e a relação com o machismo, e por que esses assuntos retornam? Acho que o fato de assistir o processo da montagem nos coloca numa relação distanciada, onde não estamos tão envolvidas com a montagem (assim como o diretor e as atrizes.) Esse lugar diferenciado abre nosso olhar para pontos de reflexão.

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Foto: Daniel Boone

A relação com o estar presa, com a cadeia, e com as situações apresentadas, dilatam as possibilidades para situações que já vivemos, que muitas vezes por estarmos envolvidas não nos atentávamos (o que é o meu caso para ser mais exata). Mas acompanhar esse processo me coloca em um estado de comparação, eu olho elas, e vejo a mim, e então consigo analisar situações da minha vida, que por estar envolvida eu não conseguia enxergar.

A partir disso repare-se que, em outras montagens do “Z” onde a mulher também está em foco, estas questões não surgiram com tanta força, mas por quê? Inicia-se uma reflexão. Diversas foram as pontuações… o machismo aumentou? Ou apenas fala-se mais disso? Nada mudou? Nada melhorou? A humanidade mudou?

Dinho aponta que: quem esteve oprimido, continua oprimido, e as noções que a gente tem nesse sentido, que a gente tem evoluído não são de todo falsas, mas são ilusórias.

Não diria ilusórias, sim lentas.  A mudança acontece, lentamente, mas parece que sempre terá alguém na posição de oprimido.

Alessandra diz que isso sempre volta porque “Essas mulheres que estão na prisão apontam nossa prisão intima, por isso a gente sempre cai nesse fator”.

Finaliza-se as reflexões ás 15:44 com: QUE MUNDO MERDA!!!

Agora me perco em minhas anotações, e não consigo organizar meu pensamento, houve muita produção nessa semana, quero falar da Capoeira, da relação mãe e filha, do porquê eu querer acompanhar o processo de montagem do Z, quero falar do silêncio esgarçado, da disposição espacial, da velocidade, de referências, a relação com a dramaturga que participa do processo e minha relação com isso, e tudo isso sem me estender, mas (para variar) já me estendendo.

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Foto: Brenda Perim

Vamos por tópicos.

Capoeira: Inicia-se o aquecimento com a capoeira, é onde inicialmente mais se tem movimentação corporal, mas ainda sim sutil, ainda sim limpa, leve, cuidadosa. A capoeira entra no espetáculo como parte da diegese da personagem mas começa a configurar uma poética da encenação (que nem sei ainda como vai estar inserida), apesar delas jogarem apenas no aquecimento, viajo pensando que isso aplicado na encenação surgiria como uma quebra, onde Alê deixaria de ser Ana, e jogaria capoeira com Mirela como se fosse outra pessoa, como se fosse memória, como se fosse símbolo, como se fosse resistência. E acho extremamente forte uma vez que leva para a encenação toda uma carga histórica que costura a linguagem do espetáculo, de um lugar de pessoas aprisionadas para se expressarem, de se comunicarem, de treinarem, enfim.

Vamos para a cena do sonho. Onde elas estão? Fica livre. No boi?  Na Cela? Na imaginação? Continua livre. A liberdade de visualidade para este estar em um lugar, traz uma coletividade onde não limita-se a rubrica, nem ao desejo do diretor, fazendo surgir uma fragmentação sem linearidade, como se fossem várias ideias que se chocam e assim surge uma nova coletivamente. Mas e quando a atriz é a dramaturga que já imaginou tudo isso uma primeira vez?  Alê disse que imagina que elas conversam baixinho dentro do boi. Como funciona essa desvinculação dramaturga/atriz/personagem no momento de criação para ir talvez além? Essa questão me surge porquê pela primeira vez estou arriscando a montagem de um texto que escrevi e mesmo que eu não esteja em cena, atuando, quero visualizar como acontecem essas escolhas e as modificações, e como elas surgem em cena. O meu desejo de acompanhar esse processo surge inicialmente disso, de querer conhecer os diferentes tipos de montar, fazer e construir o teatro. Conhecer isso a partir do Z, é uma experiência muito loca, pois via de uma forma muito distante e inalcançável. Por isso acho importante, para mim enquanto estudante de artes cênicas, perceber essas variações de prioridade dentro da montagem, e como surgem essas prioridades.

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Foto: Daniel Boone

Essa cena por exemplo em algum momento uma das atrizes falou “ VAI VÊ SE TAVA LONGE” na dramaturgia é “ VAI VÊ SE TAVA É LONGE”. Nesse momento o diretor aponta a necessidade de manter o texto original, não por um purismo do texto, mas pela intencionalidade que varia de acordo com esse “É”, que traz além disso uma carga linguística da personagem. Mas o que percebo (e pode ser uma percepção superficial) é a preocupação com os detalhes que vão desenhando a cena. Em outro momento por exemplo, uma das atrizes primeiro fez a cena com o punho fechado nas costas, na próxima passada os punhos estavam livres. Pontuasse então para manter os punhos fechados nas costas. Poderia citar mais uma serie de exemplos mas não vem ao caso agora. Mas para mim, que nunca fui de perceber os detalhes, é importante notar as diferenças que eles trazem, e ainda me pergunto, se isso é algo recorrente nas outras montagens ou se surge como característica da fuga.

Voltemos a cena do sonho. Apesar de ser livre, acho que elas continuaram a proposta da cena ser no boi. A primeira proposição então são elas de costas, sentadas no chão, enquanto Mirela conta o sonho, Ana fica com a cabeça inclinada para ela para tentar ouvir. Em certo momento Ana vira para ela e elas se olham olho a olho.

Dinho fala que o sonho vem como premonição onde talvez Ana não se dá bem, esse não contar o sonho de Mirela e como se ela se sentisse culpada, e quisesse concertar algo. Então surge a proposição de Ana levantar e ‘ir embora’, quase que por birra por Mirela não contar o sonho e então Mirela sede, conta o sonho, mas a contragosto. A cena vai se modificando agora Mirela não fica mais sentada, ela anda agachada, e são inúmeras as intepretações que isso pode trazer. Ana ouve a cena de longe, distanciada, quase como que espectadora, no momento que dá a entender que ela vai ficar preocupada porque Mirela não a via, ela num impulso se abaixa de frente para ela, faz um carinho, ela acalma amiga. Trava-se um silêncio. Começo a pensar que a poética estrutural dessa cena, e talvez de todo espetáculo seja o vazio, seja o silêncio, essa ideia de estar sozinha, a relação com o medo. Até citamos isso na sexta feira, que no decorrer da montagem das cenas vamos ter mais noção de como isso funciona e como se mede esse silêncio. Mas gosto desse silêncio que incomoda. Por que o silêncio realmente incomoda, para muitas pessoas o estar sozinho é perturbador, há uma necessidade excessiva de falar com alguém, de obter uma resposta, resposta de preferência objetiva, clara, de deixar a televisão ligada ou música, ou vídeo qualquer coisa, só para não se ficar no silêncio. Gosto desse silêncio, que se confunde com um talvez esquecimento das atrizes, com o silêncio da pessoa que não fala, com o silêncio da pessoa que não obtém resposta, um silêncio que não vem como indicativo de dramaturgia, mas que surge como criação como parte de uma camada, camada de texto, camada de olhar, camada de corpo, camada de silêncio, um silêncio que fala sem dizer.

Surge uma nova coisa, e se ao final de cada cena voltássemos sempre para a posição inicial, e consequentemente a cena sempre começaria dessa posição? Isso vai tão de encontro com que o falávamos no início do dia, dessa minoria que é sempre minoria, dessa inércia, dessa mudança lenta, dessa sensação de que por mais se tente, não sai do lugar, ou de sempre voltar ao mesmo lugar. Me lembra um pouco as propostas do teatro do absurdo o próprio silêncio, o vácuo, o voltar ao mesmo lugar, a circularidade, as duas pessoas em cena, esses diálogos, enfim.

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Foto: Brenda Perim

Nessa semana também experimentamos a respiração profunda uma respiração ofegante, sufocante, que surge como ruído no meio do silêncio, e que sempre volta, que é extremamente física, que desenha e exige do corpo. Luiz nos visitou na sexta aponta que elas surgem como que se dividissem as cenas. Mas essa respiração assim como silêncio, e assim como voltar para a mesma posição, vai além disso. Ela também é agoniante, ela também surge para além da dramaturgia, como linguagem, como questionamento, ela é falta de ar, ela é estar à beira da morte, ela é cansaço é euforia, e então pensa-se um fim do espetáculo. Apagam-se as luzes, e no escuro, sem ver, ouve-se a última e profunda respiração, talvez uma reticência, talvez um, (ponto final).

 

Protocolo #7 – Voz e Capoeira

Estou incomodada com o processo! Explico: Pareço profundamente tocada, pois me vejo de cara com o machismo e não posso negar a sua existência.

Há umas semanas, Aidê citou uma frase: “mulheres não tem voz”. Na hora, mergulhei em mim: será que não tenho voz?! – reflito!

Reconheço que não tive quase nunca. Até os 23 anos, isso é certo! Em muitas vezes temi colocar meus pontos de vista, mas em algum momento, passei a acreditar que tinha voz e era livre para dizer o que penso, o que acho, no que acredito. Mas será?!

Tenho observado minha relação com meu esposo e percebo aqueles machismos culturais cotidianos, porém, também percebo uma enorme movimentação da parte dele para compreender-se e abandonar este tipo de esteriotipação machista. Defendo-o?! Generalizo?! Me sinto generalizada também quando falam das feministas. Sempre fujo de esteriotipação. Talvez loucamente desejante de um mundo sem gêneros. Não quero mais. Um mundo dividido entre homens e mulheres, cis e trans, acho pouco, limitado. Entendo que cada ser viva seu gênero de sua própria forma. São 7 bilhões de gêneros e mais um pouco. [Esse processo mexe comigo! Que bom! Não é um processo vazio.]

Não tenho voz como achava. Não é escancarado. É bem sutil na verdade. É naquela hora que você quer gritar e dizer: “nossa, como você está sendo machista!”. Mas acaba calando, pois vão ser outras tantas horas de justificativas tentando dizer o quanto ele não se considera machista.

Então, mulheres, calamos. Calamos na pior das covardias. Calamos por que não temos mais saco para ensinar macho barbado a respeitar mulher. E a voz vai pro ralo. Perdemos. Perdemos a paciência, perdemos a voz. [Tivemos voz pra perder?!].

Meu dia de protocolo chegou. Não consigo deixar de pensar que temos uma bebê no meio do processo e nada mais feminino que termos uma mãe em cena e mulheres se dividindo em solidariedade para darmos conta de distraí-la e fazer a mãe concentrar-se na cena.

Hoje Dinho não está. A gripe capixaba chegou nele. Tinha chegado em mim no fim de semana. Está passeando por aí.

Lemos o protocolo da Patrícia, que já foi publicado. Conversamos sobre o processo, sobre capoeira, sobre possibilidades. A Capoeira chegou com tudo essa semana. Mais específico a de Angola. Como dito no protocolo da Patrícia, prática que um dia virou crime. Pensamos no Negro. Na criminalização da cor. Do Negro. Na discriminação social a partir da cor da pele. Pensamos na negritude das cadeias, na similitude dos navios negreiros, no encarceramento negro. Falamos de presos. De presas. De mulheres. Encarceramento físico e subjetivo.

O aquecimento aconteceu como de costume. Agora com Ioga e Capoeira. Marcas com giz no chão, em quadrado,  limitando a cela. Inicamos na cena 01 e fizemos a transição para cena 02. Estamos experimentado as cenas.

Num papo sobre baratas subindo nas calças e pombos entrando pela janela. Começamos na quarta com muita gargalhada e nossos medos cotidianos. As meninas foram para o aquecimento. Hoje está um pouco mais frio, e estamos num ritmo naturalmente mais lento. A Capoeira continua como objeto de pesquisa. A gripe continua passeando por aqui. Desta vez, Luiza. Fizemos a cena 01 e a 02.

Levantei a questão de não conhecer a realidade dos presídios femininos. Sinto falta desta referência para contribuir melhor. Vamos iniciar as pesquisas por documentários. Pesquisar grupos que trabalham com detentas nos presídios. Parece muito difícil essa aproximação. Temos também os livros. Presos que Menstruam e o novo de Dráuzio Varella. Repetimos a cena 02.

Nos presídios tem banheiro nas celas?! As ideias continuam borbulhando. Pensamos em sons metalizados. Gaiolas. Alambrados. Luzes. Plantas Baixas. Ideias. Ideias. Ideias…

Até a próxima!