Abrindo os trabalhos

A Fuga é a nova montagem do Grupo Z e o projeto foi contemplado pelo Funcultura/SECULT 2016. Na peça, duas mulheres encarceradas participam de um plano de fuga.

Esse blog é um espaço onde as integrantes do grupo e mais cinco colaboradoras compartilharão registros e impressões sobre a nova montagem. É, também, uma ferramenta de aproximação com xs espectadorxs, propondo uma troca de ideias sobre o que mostraremos por aqui.

Em nossa trajetória, três eixos orientam o processo de criação: o corpo, a exploração de espaços diversos e a dramaturgia própria. A partir desses eixos nos movemos, nos repetimos, nos desdobramos pra novas possibilidades. A dramaturgia desse projeto é resultado desse contexto em que vamos nos formando e, sendo eu que aqui falo em nome do Z, a dramaturga iniciante, abro um parêntesis e falo por mim que esse texto só existe porque existe antes uma trajetória do Z, na qual estou inserida.

Esse trabalho continuado de pesquisa faz com que a gente sistematize algumas coisas, mas cada momento tem suas próprias exigências. Não é a primeira vez que criamos um blog, mas também não criamos um blog a cada novo processo. Apostamos então no que acreditamos ser uma necessidade para a realização de cada pesquisa.

Outra aposta do projeto são as colaboradoras que estão nos acompanhando. Patricia, que já é agregada ao grupo há mais tempo e mais a Alessandra, a Brenda, a Camila, a Luiza e a Maria Aidê. Seis mulheres maravilhosas, registrando, opinando, sugerindo, construindo com a gente. E, se somos mais mulheres no processo, o que nem é tão novidade assim no Z, aqui no blog a fala é exclusivamente nossa. E exclusividade, nesse caso, tem a ver com a construção de um espaço efetivo à democratização de conteúdo artístico e crítico produzido por mulheres.

Esperamos que a troca por aqui seja intensa como tem sido em nossos encontros!
Sejam bem vindxs!
Merda pra gente!

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Protocolo #16 – Só morre quem reza pra Exu

Na semana pós ensaio aberto, tivemos encontros nos dias 16 e 18. A conversa começa sobre as religiões praticadas por Ana e Mirela, e em como a opção religiosa de cada uma, independente da trama dramatúrgica, diz sobre as chances de sobrevivência de seus seguidores. Não importa o tamanho de sua crença. Se suas orações são destinadas a Exu, suas chances de sobrevivências são consideravelmente menores em comparação com as de quem reza para um Deus cristão. Sim, quem crê em Exu morre mais do que quem crê em Jesus.

Obviamente não pretendo com tal afirmação lançar ou justificar qualquer dogma de supremacia religiosa, muito pelo contrário. O que quero dizer é que, como se já não bastasse ser mulher-invisível-presidiária, como se não bastasse ter ido parar ali por conta de um homem, Mirela, por praticar uma religião de matriz africana, se situa automaticamente em mais uma ponta de vulnerabilidade social.

O desfecho do texto, dessa forma, se estabelece também como uma metáfora ao que ocorre com tantas pessoas que têm suas vidas interrompidas por perseguição religiosa. Perceber essas diferenças desenhadas com tamanha nitidez em nossas relações sociais também a partir do viés religioso, nos aponta escolhas de encenação que demarcam um posicionamento político em relação a tal cenário.

A energia pré estreia chegou na sala de ensaio sem fazer cerimônia. A concentração para cena é difícil, diante de tantas questões a serem resolvidas. Em uma curta conversa decidimos sobre o caráter da oficina que será oferecida durante dois dias da temporada. Como não poderia ser diferente, passamos também por questões como o desejo em abrir processos formativos mais duradouros, a inviabilidade financeira em produzir tudo da forma como gostaríamos e os diversos editais que, hora engessam, hora flexibilizam nosso trabalho criativo. Fim do alongamento, trégua na conversa. As sequências de aquecimento, cada vez mais “coreografadas”, pontuam corpos de personagens cada vez mais bem desenhados, e a cada dia mais coerentes com as identidades de Ana e Mirela.

Passamos por uma cena muito delicada e importante da peça, onde buscamos uma intimidade sincera e despretenciosa entre as personagens. Discutimos a real necessidade da presença de alguns elementos cênicos já pré determinados, e não chegamos a nenhuma definição. Alguns trechos são marcados e experimentados com e sem os objetos.

Cuidado com o tom reticente. Jogo dos beijos referenciado na capoeira. Ataca. Defende. Para. Marcar o desenho da entrega do batom. Precisa ter ritmo e precisão. Precisa ser mais assertivo. Cai no meio da oração. Beija as feridas? Com batom? Com colher? Fogem dos seus desejos. Duas crianças. Duas mulheres. Corpos separados. Corpos unidos. Não vai dar tempo! Calma, vai dar. Tem muita coisa. Ensaio extra. Não vai dar tempo. Ensaio Extra! Ensaio extra. Ensaio… E assim terminamos uma semana que não se fechou. Até a estreia o tempo passa oficialmente a correr e a ser contado de maneira diferente.

Poderosos Senhores: Exu Tranca Rua, Seu Veludo Negro, Seu Caveira, Seu Capa Preta, Seu da Meia Noite, Seu da Meia Noite das Almas, Seu do Lodo, Seu Tiriri, Seu Tiriri do Cruzeiro, Seu Sete Ventanias, Seu Tira Teima, Minha Rainha Poderosa, Maria Padilha, Rainha do Cruzeiro e as pomba gira tudo. Neste momento de aflição e fragilidade, coloco minhas mão no chão e firmo meu pensamento na certeza de que serei atendida. Clareie os caminho. Laroiê Exu!”

Dessa vez ousamos não morrer!

Protocolo #15 – Dia de visita

Veja. A grama está crescendo.

Ela está crescendo através das rachaduras.

Os guardas dizem que a grama é contra a lei.

Grama é contrabando na prisão.

Os guardas dizem que a grama é insolente.

É grama arrogante, grama radical, grama militante,

grama terrorista, que eles chamam de ervas daninhas.

Ervas daninhas desagradáveis, ervas daninhas criolas,

sujas, caribenhas, indianas selvagens, mexicanas,

liberais, ervas daninhas comunistas – subversivas!

E assim os guardas tentam acabar com a grama.

Eles arrancam-na de suas raízes.

Eles as envenenam com drogas.

Eles as espancam, eles investigam-nas.

Lâminas de gramas foram encontradas enforcadas nas celas,

cobertas de hematomas. “aparentemente suicídios”

Os guardas dizem que A GRAMA NÃO É AUTORIZADA.

NÃO DEIXEM A GRAMA CRESCER.

Você pode espionar a grama. Você pode trancar a grama

Você pode cortá-la baixo, temporariamente.

Mas você nunca vai impedi-la de crescer.”

Trecho de “Ninguém pode parar a chuva” – Assata Shakur

Esse protocolo, diferente de todos os outros, trata de apenas um encontro. Mas não se trata de mais um encontro como os que mantemos desde o início do processo de montagem. Sexta, 04 de agosto, foi dia de ensaio aberto. Durante os últimos meses, recebemos algumas visitas pontuais. Luara foi a última delas, que nos apresentou uma carta de Assata Shakur, cujo trecho senti a necessidade de incluir acima. Assata Shakur é mulher negra e militante. Foi mebro dos Panteras Negras, foi criminalizada, perseguida e presa. Exilada em Cuba desde 84, Assata Shakur foi incluída pelo FBI na lista dos “principais terroristas procurados”, com recompensa de 2 milhões por informações que levem a sua prisão. O crime de Assata Shakur é ser grama que nunca para de crescer. Mesmo presa, mesmo perseguida, mesmo criminalizada. Assata Shaur é grama que aprendeu na luta o valor da resistência. Assata Shakur é grama que não se dobra, não se pisa, não se corta. Assata Shakur ficou em mim, reverberando durante toda semana e me acompanhou naquela noite chuvosa até o ensaio aberto, nosso primeiro dia oficinal de visita.

Atrasada, ao chegar encontrei o público já presente, que aguardava na varanda para entrar. Sala de apresentação fechada, o que me fez pensar que o elenco deveria estar em aquecimento e que o ensaio logo começaria. Fernando libera a entrada do público e me informa que eu poderia ler trechos dos protocolos escritos por mim durante o aquecimento das atrizes. Não me preparei para isso, faltei o encontro da tarde onde esses detalhes foram definidos. O desejo de incluir os protocolos no ensaio já existia, porém, por dificuldades em organizar a dinâmica de utilização deles, tinham acabado ficando de fora. De última hora optaram pela leitura. De última hora topei!

Nos últimos instantes abri no celular o primeiro registro que escrevi do processo. Li trechos alternados depois de Patrícia e Luíza, que já haviam feito o mesmo. Enquanto líamos, Carla e Alê preparavam seus corpos para Mirela e Ana, em uma sequência de aquecimento criada a partir de movimentos de ioga e capoeira. Não sei de quem foi a proposta de retomar utilização dos protocolos. Também não sei como teria sido se os textos tivessem sido previamente editados. Apenas acredito que, de alguma forma, falamos tudo que deveríamos ter dito.

Apesar da presença nos ensaios ter me rendido uma apropriação satisfatória do texto, e apesar de ter ciência de boa parte das escolhas feitas pelo elenco e pela direção naquela montagem, confesso que ver o trabalho ali, “quase pronto”, com iluminação e atrizes pulsantes em cena, me trouxe a sensação de estar assistindo A Fuga primeira vez. E de certa forma foi, considerando que o fragmento ali apresentado é composto pela sobreposição de diversas camadas colocadas, retiradas e alteradas a cada encontro. Vendo como a luz “veste” a história, tive cada vez mais convicção de que acertamos ao descartar todas as possibilidades “mirabolantes” de construção cenográfica surgidas durante o processo.

Mas foi preciso passar por esse caminho, entendo. O ensaio aberto nos mostra muito além de uma apresentação de uma peça em processo de montagem. O ensaio aberto apresenta o túneo que escolhemos cavar, e nos mostra que tantos outros podem ser cavados também. O retorno do público nos traz convicção em relação a alguns caminhos, e também nos apresenta outras possibilidades, como a sugerida adoção dos protocolos como parte integrante da montagem.

Ana e Mirela são oficialmente criminosas. Cumprem pena determinada pelo Estado Brasileiro como forma de pagar pelos crimes que cometeram. Ana e Mirela, na opinião de muitos, deveriam morrer ou, no mínimo, passar o resto de suas vidas em condições sub humanas em uma cadeia qualquer. É por isso que A Fuga existe. Por que muitas Anas e Mirelas gritam através das vozes de Carla e Alê a cada frase do texto. Elas escancaram nossa apatia em relação a tantas outras mulheres encarceradas de diversas formas ao nosso redor. São as Anas e Mirelas que escolhemos não ver. Ana e Mirela são personagens que nos fazem sentir identificação por quem talvez outrora só provocaria indiferença. E é justamente a partir dessa voz de quem grita como quem diz “eu existo” que surge toda identificação do público com as personagens. Nos emprestando suas histórias, que poderiam ser de qualquer uma de nós, Ana e Mirela reforçam a urgência de falar sobre nossa condição enquanto mulher, sempre em cárcere, seja de maneira subjetiva ou concretamente. Estamos próximas da estreia, agora nos resta pouco a cavar. E resistente como Assata Shakur nossa grama segue crescendo. Ainda bem.

Protocolo #14 – Batom Vermelho

Dias 02,04,09 de Agosto

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A Fuga – 02 de Agosto de 2017

Que hoje eu passei batom vermelho!

A cena do batom que começou a ser estruturada na semana anterior ainda estava em foco nesse dia, porém bem avançada.  Mas o que é a cena do batom? Na dramaturgia ela é chamada de “ Dia da Visita”, o diálogo inicial passa exatamente por isso, onde as personagens discutem essa relação, apontando os conflitos referentes a elas e esse dia. Então por quê ficou tão forte para mim chama-la de cena do batom? O que aconteceu na verdade é que o batom virou um elemento estruturador para além do texto, que ao mesmo tempo em que esta inserido no universo diegético (onde uma dá o batom para a outra e se inicia o jogo) ele pode não estar, pois extrapola os limites da narrativa.  Para entender melhor sinto a necessidade de voltar ao primeiro dia de improvisação da cena.

Alê e Carla jogam a partir desse elemento, o batom. Um jogo de cena enquanto descoberta. Elas usam o batom de diversas maneiras, e também os beijos, que marcam o batom de uma na outra. A improvisação seguiu se não me engano por uns cinco minutos, até que uma das atrizes cortou o jogo. Diversos materiais interessantes surgiram logo nesse primeiro momento, e eu diria que partiram do elemento batom, porque sempre se voltava para ele, porque era ele muitas vezes entretia o olhar de alguma das atrizes durante a cena dando uma infinidade de visualidades, porque a ação partia dele, enfim…Não falo isso por uma supervalorização do batom, mas há algo de belo em perceber a operação da cena em relação as atrizes, o texto e ele.

O batom era ao mesmo tempo “limitador” pois tinha que se usar ele (não como uma obrigação, mas como parte do jogo) e ao mesmo tempo liberdade criativa, pois era base. Gosto de um trecho da Diretora Anne Bogart que fala dessa relação no momento de criação. Ela aponta que há uma certa violência nas escolhas desses elementos em cena, afinal a dramaturga de ‘A Fuga’ não escolheu nenhum outro objeto, (nem o diretor) e sim um batom, excluindo todas as outras possibilidades, um ato de escolha que pode vir por diversos motivos. Bogart diz que: “Articula-se diante das limitações: é aí que a violência se instala. Esse ato de violência necessário, que de início parece limitar a liberdade e diminuir as opções, por sua vez traz muitas outras alternativas e exige do ator uma noção de liberdade” (BOGART, p.53)(…) “ Paradoxalmente, são as restrições, a precisão, a exatidão, que possibilitam a liberdade. A forma passa a ser um continente no qual o ator pode encontrar infinitas varrições e liberdade interpretativa” (BOGART, p. 52) E sinto que essa liberdade foi explorada neste dia, experimentando as diversas variações e poética da cena que surgiam de um simples (ou não) batom.

Uma dessas variações foi um lugar de brincadeira, as atrizes se divertiam, em alguns momentos pareciam sentir vergonha, riam, corriam, aceleravam o jogo, diminuíam a velocidade. Como em um pique pega. No pique pega você corre, cansa, analisa, começa a criar estratégias para pegar o outro, senti isso em cena, que muitas vezes transbordava pelo olhar. Seus olhares me traziam falas internas onde talvez uma pensava “Agora vou te pegar/ vem pra você vêr/ Olha como o cabelo dela ta bonito hoje/ Ela ficou linda de batom/ Não corre de mim/ Agora pego ela de surpresa”, não que as atrizes pensassem isso ou devessem pensar, em hipótese alguma, mas eu enquanto espectadora naquele momento, me senti na liberdade de me deixar levar pelo jogo, e perceber as diferentes interpretações e sensações que me causavam. A brincadeira estabelecida nos fazia flutuar para espaço que não a cadeia, para uma espera não mais da visita, poderia ser de qualquer coisa.

Na quarta a cena já estava mais desenhada, já tinha perdido seu caráter experimentações livre, era uma experimentação direcionada (se não me engano a cena foi trabalhada no sábado também, mas não tenho certeza). Ainda como falei acima, a cena continuou nos levando para este tempo espaço que não mais a proposta da narrativa, quase que uma desvinculação, que pode ser interpretada de forma lógica como: isso está acontecendo apenas na cabeça delas/ é um sonho/; ou sem precisar de uma justificativa de encenação. Talvez seja ao mesmo tempo as duas opções, ou talvez a segunda leve a primeira. O que quero apontar é a autonomia do jogo, sua independência.

A cena agora acontece de modo crescente, as ações estão mais desenhadas, mas acredito que as visualidades dos olhares que citei, permaneceram mesmo que sutilmente.

Como uma montanha russa, a cena pega embalo, e vai por outros caminhos, mas ainda partindo do batom. Quando Mirela oferece o batom para Ana, Ana para e o olha (o que passa em sua cabeça?) Depois Mirela pega o batom e passa em Ana. Ana pega o Batom e passa Mirela. As duas pegam o batom várias vezes e passam nelas mesma, e beijam, e marcam os corpos, e passam mais batom, e riscam os corpos com o batom, e mancham as marcas do batom, a cena caminha para uma sedução, e então elas se beijam deliberadamente pela primeira vez, tornam a jogar e finalizam.

O beijo de Mirela e Ana. Discutimos se este era o primeiro beijo delas. De início pensei que elas já haviam se beijado outras vezes, por diversos motivos que já conversamos que acontecem nas cadeias, seja para suprir um desejo sexual, seja por real atração, enfim, sendo assim, acreditava não ter uma necessidade de valorização deste momento. O ato de não ser o primeiro beijo, me traz a reflexão de naturalidade, de algo que já acontece regularmente. Mas não, este de fato é o primeiro beijo entre as duas. Foi apontado que este primeiro beijo não deveria ser um beijo roubado, e sim um querer de ambas as partes, as duas querem, as duas beijam.

Mas voltemos ao batom. Conversamos um bom tempo sobre as imagens que o uso do batom e principalmente o batom vermelho podem levantar. O batom vermelho já foi e ainda é, alvo de associações vulgarizadas, mulheres que usam batom vermelho são chamadas de piranhas, em outros casos mulheres negras não podem usar o batom vermelho, pois não combina com o tom de sua pele. Mas também é lugar de independência, de poder, seja por infligir o pensamento da vulgarização e proibição, seja para assumi-los “ eu sou vulgar, e quero ser vulgar”.

O Batom vermelho, é um mar de possibilidades, que se ampliam no seu uso em cena. Ao mesmo tempo que vejo carinhos com marca de beijo, vejo marcas de agressão, que se borram e quanto mais se esfrega e tenta-se tirar, maiores e mais manchadas elas ficam (principalmente com batons vagabundos kkkk), vejo feridas da vida com as coisas que ouvimos devido ao batom vermelho e outras coisas, vejo o sangue das pessoas mortas pelas mãos dessas mulheres, e também vejo o sangue das mulheres mortas por batons vermelhos, vejo através da simbologia da cor VEREMLHO o amor, mas pelo mesmo motivo vejo o ódio. A carga complexa que o batom vermelho traz à cena, aponta para mim a complexidade das relações humanas, aponta a ‘multifacetareidade’ do ser que não é todo amor, que não é todo ódio, que não é todo beijo, que não é todo agressão.

 A Fuga – Dias 04 e 09 de agosto/ 2017

Dia 04 de agosto, sexta-feira, dia do ensaio aberto. Gostaria de começar o protocolo de hoje falando do ensaio aberto, mas isso não será possível devido a minha ausência. Então falemos do ensaio normal, sinceramente estava distraída nesse dia, estava no ensaio sem estar. Lembro que a luz foi pensada e testada para o ensaio. Alguns empecilhos impediam a luz ideal, mas algo me agradava naquela luz que comecei a vez, que cortava a atriz pela metade se ela ficasse em pé. Metade do rosto na luz, metade do rosto na escuridão.  Corpos que aparecem e desparecem de acordo com o que se movem. Nem sei se ficou assim pra apresentação do ensaio aberto ao público, mas aquela imagem que vi, ou pensei que vi tinha algo de belo, desenhava a poesia da cena, que fazia menção as grades das celas, as luzes que entram cortadas; lembrava a clichê frase do sol nascendo quadrado, que deixa os corpos quadrados, provavelmente a cabeça e os sonhos também.

Mas vamos para um dia em que estava mais presente. Dia 09 de agosto, quarta-feira, Carla estava viajando. Pegamos a cena em que Ana faz a oração. Primeiro uma improvisação livre com base nas rubricas, acompanhado o texto. Acho fascinante quando a partir disso o Dinho vai parando a cena, e desenhando junto dela, e o mesmo Alê, que mesmo tendo escrito o texto, tem imagens que lhe impulsionam em cena a fazendo criar, nos mínimos detalhes.

A cena em questão Ana está orando, ou ao menos tentar orar. A nuança rítmica que a cena tomou desenhou ou desvendou algo quase que interno de Ana, transpassando uma aflição que desmorona através do ritmo estabelecido na voz, movimentação corporal e na disposição espacial. Não lembro a ordem dos fatores, como a coisa era e como ela passou a ser, mas sei que Alê finalizou a cena de costas, um ato íntimo. O público (no caso eu), se sente invasor, não deveria estar ouvindo a sua clemência, o seu agradecimento, a sua conversa. Não me recordo o momento em que ela se vira, mas há um momento, o exato momento em que deixo de ser invasora, e passo a ser cumplice de sua dor e de sua Clemência (Se não me engano é no momento em que ela desiste de agradecer).

“SER PRESA É TER GRADES NO CORPO INTEIRO”

É o exato momento de identificação que já a tanto falamos, que amplia para além da cadeia. Ela fala do esquecimento. Quem não foi esquecida? Da solidão. Quem não se sente só? É um encontro não entre Ana e Deus, mas entre ANAS! Entre Ana e Maria, entre Ana e ela mesma, entre Ana e eu, entre Ana e todas nós.

Bom não pretendo me estender neste protocolo, estou tentando trabalhar a objetividade. Então vamos seguir.

Depois dessa relação estabelecida com a plateia, e identificação com a personagem. Ana desiste e desaba orando a “Salve Rainha”, lembro dela caindo o volume, e a ouvíamos apenas balbuciando a oração, não era possível entender muita coisa, assim o meu impulso inicial era orar, e não por ser religiosa nem nada, pois não sou, mas o fato de saber a oração, e perceber o seu desespero, me tira a necessidade de entendimento da palavra, pois a cena extrapolou o seu sentido, nesse momento a cena transpassa o “ Salve rainha mãe de misericórdia”, e aponta a construção das nuances dessa cena.

Dinho sugeriu que ouve-se uma sobreposição nesse momento da oração, uma sobreposição corporal onde Carla se movimento no fundo (uma movimentação de uma outra cultura) enquanto Ale faz essa oração. Lembrei de Pentagrama no momento em que dois atores ficam no centro conversando, e os demais em volta trabalhando a movimentação. Mas além disso me veio a imagem, ainda indo de encontro com a não necessidade de entender a oração, de utilizar da polifonia onde as vozes das duas se sobrepõe em desespero pela solidão, pela agonia, pela saudade, pelo medo, e por qualquer coisa. Uma sobreposição entre culturas e deuses diferentes, onde cada uma se agarra onde pode para continuar seguindo.  Outra imagem que me vem a partir da polifonia é ampliação para além das celas da duas. As outras presas também oram, e clamam pela ajuda dos mais diferentes deuses, todas ao mesmo tempo, cada uma em uma oração, cada uma em língua. Onde talvez todas clamem por ajuda ao mesmo tempo, e ninguém é ouvida!

 

Protocolo #13 – Em Casa!

Subi pela estrutura de aço e andei pelo parapeito alto da janela para prender a cortina na esquadria. – uma ação com certo risco, devido as condições do espaço para fora da janela. Pergunto-me sobre a necessidade que tenho de criar poesia para gestos simples da vida, mas falo isso, porque estávamos todas esperando “o homem que estava acostumado a subir” para resolver para nós o problema. Porém, eu resolvi encarar essa eu mesma!

Essa questão acaba encontrando com o processo. Coisas que dialogamos. E fiz poesia feminista com o fato, claro.  A poesia fala do empoderamento simples ao qual me propus, de fazer a ação sem esperar “o homem que estava acostumado a subir”. – Esse mesmo homem que corre riscos e “nos livra” do perigo. O ato parece pequeno, mas, nas devidas proporções, não é! Assumir determinadas posturas e ações simples do cotidiano, “sem esperar o homem que está acostumado a fazer” tbm é uma forma de empoderamento. Portanto meninas, vão lá e façam vocês mesmas!

Neste dia falamos de sonoplastia. O protocolo da Brenda falava de teatro e técnicas. Penso: como uma formação acadêmica na área nos abre tantos olhares para a cena. –  a Brenda estuda Teatro na UVV.

Estou me sentindo em casa em A Fuga. Sinto-me integrada, ouvida, participando, devidamente atuante.  Estou feliz em participar da montagem.

Fizemos uma pausa no processo e voltamos uma semana depois. Muita gente doente. Falamos do pó preto de Vitória. Por este motivo, reiniciamos os ensaios em “low”, pois as meninas ainda estão indispostas. Tivemos a visita do Fernando, diretor de “Se Eu Fosse Iracema”. – e se eu fosse você, não perdia.

Fomos então no ritmo das meninas. Ficamos de “ver onde vai dar tudo isso”. E apesar de mais lento, o ensaio fluiu muito bem.

Já era quarta e estava chovendo. Agora quem adoeceu fui eu. Lemos o protocolo da Camila e partimos para o aquecimento.

Fiquei viajando na ideia da relação entre Khali e Exu, citada no protocolo da Cá. Alê sente necessidade de explicar que a ideia é toda sua. Não tem base em artigos ou estudos. Chegamos a conclusão de que sua opinião é muito livre neste sentido. Livre o pensamento, dispensa justificativas.

Já o protocolo de Luiza foi um soco no estômago! – no bom sentido! (oi?) No nosso, no da sociedade! Fizemos, involuntariamente um minuto de silêncio. Diria que foram séculos de silêncio. Uma bruta caída de fichas.

Estamos diante de uma questão muito séria que é a questão do sistema carcerário brasileiro, mas não se leva nada a sério. Sequer se para para pensar nestas pessoas, suas dores e urgências. Discutimos política. Falamos de conquistas e retrocessos. Pensamos em como o Brasil de hoje se parecia com o Brasil pré golpe de 1964 e como tudo foi culminando no Brasil de 68, o Brasil AI5, onde a liberdade foi cerceada a níveis alarmantes. Falamos ainda dos movimentos das ditas minorias que tem suas causas apropriadas pelo mercado, pelo marketing, distorcidas pela mídia e invisibilizadas pelo governo. Sinto-me amplamente representada pelas falas.

Yoga e Capoeira nos trazem de volta ao pragmatismo do processo. Passadão, da primeira cena até onde der. Daqui a pouco teremos ensaio aberto. Dia 04 de agosto. Ainda é quarta-feira. Ou já é quarta-feira. Minha vida está a mil. Tenho trazido o meu notebook para dar conta das coisas.

Hoje estavamos solidárias com Alê. Sussu, nossa bebê, estava querendo atenção da mamãe. Viajei de novo na ideia de ser mãe e ir ensaiar. Penso em mim, como atriz, como mulher. Fiquei pensando em como as ações da Alê em cena tem tanta verdade para  Sussu. Claro que houve um certo drama ao ver a mamãe contorcida com respiração ofegante. Compreensível! Rendemo-nos às lágrimas de Sussu e paramos tudo. Depois da pausa o ensaio avançou bastante, foram se dando as cenas.

Resolvemos fazer uma leitura das próximas construções e falamos sobre as gírias da prisão. As dubiedades sobre a expressão “dar um pino”. Tantas palavras novas, universo desconhecido. Estou tão distante destas mulheres representadas que tenho vontade de orar por elas. Talvez seja por minha sensação de impotência, tenho vontade de apelar para o abstrato.

Durante a leitura caímos numa discussão sobre o batom. Os tabus sobre o batom e o dilema de usar ou não usar. Lembrei quando era pequena, do batom da minha mãe que parecia um projétil. Falamos de batons vermelhos. Machismos relacionados ao Batom e relacionamentos abusivos. Abusos sutis. – se é que isso existe.

O assunto se estendeu. – Como sempre! O melhor, para mim, dos ensaios, são estas discussões louquíssimas depois. Seja leitura de protocolo, sejam discussões sobre a cena, sejam debates sobre o universo. É muita gente inteligente, criativa, crítica e política. E vou terminar, mais ou menos como comecei: me sinto em casa! Cada vez mais acolhida! É isso aí! Até a próxima!!

Protocolo #12

luiza

Em fuga

Luiza Vitório


 

 

De um jeito mais simples eu posso afirmar que A Fuga é um processo de montagem que revela as mazelas de duas mulheres presidiárias que tentam fugir.

Ana e Mirela são a representação de uma porcentagem absurdamente crescente de acordo com as estatísticas de mulheres encarceradas neste país dito progressista e democrático. A cada novo encontro ensaio reunião eu percebo que estas duas personas simbolizam um mundo de pessoas não encarceradas de fato, mas simplesmente ( se é que é digno assim dizer) presas em si mesmas por esta sociedade retardada. Mulheres com suas obrigações santidade submissão e fragilidade e homens em seus estereótipos de homens, todos creio produzindo planos de fuga.

Invisíveis ou invisibilizados? Não sei, fato é que este brilhante texto tem desde o início dos ensaios exposto não só as muitas falhas do sistema carcerário feminino como também as feridas abertas desta sociedade falida. A Fuga é um texto extremamente incômodo e revelador .

O que eu sei é que este método legalizado de reabilitação prisional pouco ou quase nada reabilita ao que me consta resulta tão somente em destruir o que havia ou restava de humano naquelas que por algum motivo foram pegas pelos senhores da lei.

Eu sei que quem um dia sobreviveu ao Sofrimento corre o risco de mesmo fora das grades nunca mais sair do aprisionamento mental e físico. Eu sei que apesar das prisões serem justificáveis e justificadas o período de aprisionamento multiplica devido aos letárgicos trâmites do judiciário nacional. Eu sei que muitas ladras de leite e desodorante permanecerão em um sem fim de anos a espera do julgamento legalmente encarceradas enquanto socialite corruptas, patricinhas cleptomaníacas obtém seus habeas corpus em algumas horas.

Eu sei que a justiça é segregacionista.

E sinto que presos ou não estamos todos em fuga.

 

Protocolo #11 – (Pré-) julgamento de Ana, culpas e entre ficção e realidade

“Eu não aguentava mais apanhar”. Começo este protocolo sem ordem cronológica, talvez sem nenhuma ordem. Mas, para registro, digo que se refere ao que permeou as duas últimas quartas, já que pulamos a sexta por inviabilidade e por concordar que era necessário não viabilizar nada naquele dia. O rompante de Ana é seguido por uma narração que a personagem faz sobre o que a teria levado a estar onde está, em situação de cárcere, mas muito mais do que isso. Em que lugar está Ana? Em que lugar na vida? Como tantas outras mulheres, ela passou muito tempo / apanhando, já esteve / apaixonada, sentiu / medo, pensou / na filha, pediu / socorro, da maneira que conseguiu, guardou / suas marcas, empunhou uma faca.

Penso – e esta é uma opinião pessoal – que não buscamos, em A Fuga, explicitamente, justificar os crimes cometidos por mulheres que hoje estão presas, de modo generalizado, nem inocentá-las, salvá-las ou dar-lhes redenção. Para além desse julgamento, acredito em uma preocupação em humanizar o que é desumanizado, falar de pessoas, dar contextos, complexificar o que é complexo e que se insere em estruturas e parâmetros sociais perversos, machistas, opressores, excludentes e, na maioria das vezes, injustos em suas origens. O que é justo, senhores? Relativizar o olhar não é ser condescendente, é cavar mais fundo à procura de raízes. É falar da mesma coisa só que do tamanho que ela é. Qual o tamanho da coisa, senhores? Estamos descobrindo. Quantas testemunhas de Ana temos aqui? Muitas delas não estavam presentes hora nenhuma, mas com certeza sabem exatamente como foi a coisa toda, desde o começo até o final. Ana é muitas, quase foi muitas, ainda será muitas. E ainda que eu seja tentada a advogar a favor de Ana, não é esse o caso do espetáculo, e também não deixa de ser.

Saiu em A Tribuna desta semana uma reportagem especial sobre o cárcere feminino no Espírito Santo e, reforçando o que já havíamos levantado, a maior parte das mulheres presas está na cadeia por tráfico de drogas. Em vários casos, o tráfico surge de maneira indireta, através do cônjuge. Algumas delas, de outra forma, fazem questão de afirmar que se iniciaram sozinhas no tráfico, por “aventura”, sozinha, eu mesma quis, eu fui lá e fiz, a culpa é minha. Ainda que não seja o caso de Ana, em A Fuga (mas seja o caso de Mirela, no espetáculo), a personagem também traz o peso e a tristeza de uma culpa solitária. Um dos principais desafios do encarceramento feminino é a quebra dos laços familiares, uma vez que as visitas às mulheres são raras, nem de pai, nem de mãe, muito menos de cônjuge, ao contrário do que acontece nos presídios masculinos, com aquelas filas de… mulheres que vão visitar os presos. Outro peso dado à mulher presa é a responsabilidade por ser um péssimo exemplo de mãe. E essa mãe é punida tanto emocionalmente quanto fisicamente, ao ter os laços praticamente cortados com os filhos e, novamente, toda a culpa.

Fotos: Luiz Carlos Cardoso

Há vários outros aspectos do encarceramento feminino discutidos nos encontros de A Fuga. Neste momento da montagem, de volta a Ana, ela escreve uma carta para sua mãe. “Receber uma carta é que nem receber uma visita. Nos sentimos lembradas”. Ana também se preocupa com que sua filha não faça nada de errado, pra não ter o mesmo destino que a mãe.

Os tempos são dilatados. Um passadão recupera tudo que o que foi construído até agora no trabalho. O trabalho faz o grupo repensar sobre o próprio fazer. Observamos um daqueles momentos bonitos de se autoquestionar sobre suas práticas de trabalho, mesmo depois de 20 anos de existência como Grupo Z. A pergunta que fica é como aproveitar os estados gerados pela própria vida no trabalho de ator e atriz, isso no cansaço cotidiano, no corpo da atriz que é mãe e se divide como pode entre a maternidade e a vida na arte, mesmo quando não acha que esteja dando 100% em tudo – e isso seria possível? Quando tudo lá fora parece engolir a gente, quando dá desânimo, quando é muita coisa pra pouco tempo. Mas também quando parece ser urgente estar aqui, quando não fazer isso que insistimos em fazer é como silenciar a alma. Então, fazemos. E tudo se confunde, se mistura, mais uma vez, entre ficção e realidade, a vida “de fora” e a sala de ensaio, entre Ana e todas nós.

 

 

 

 

 

Protocolo #10 – A plenos pulmões

[O primeiro parágrafo desse protocolo deve ser lido em voz alta e com apenas uma respiração. Na verdade você lê como quiser, mas caso aceite a sugestão segue um passo a passo que pode te ajudar. Preparação: respire fundo, enchendo seus pulmões com o máximo de ar possível. Não, para! Não é assim estufando o peito. Dessa forma você cria mais tensões no corpo do que se preenche com ar. Mantenha o corpo relaxado. Coloque as mãos nas costelas. Elas protegem seus pulmões, então eles estão mais ou menos por aí e você vai senti-los inflando como uma bexiga quando você respirar. Respire pelo nariz e solte o ar pela boca algumas vezes, até você começar a notar uma leve dilatação em suas costelas. Não se assuste! Isso são seus pulmões empurrando suas costelas, o que significa que você está expandindo sua capacidade respiratória. Exercício pra vida. Repita algumas vezes ao dia… pra sempre… sempre que puder. Agora que você já está tecnicamente apto para fazer a leitura, respira e vai!]

Coxinha estragada Insônia Açucena chora no ônibus Esgotamento Saltou antes da hora Foi convocada e não viu Novas crianças Visita do Fernando Camila atrasada Patrícia não vem Se eu fosse Iracema Todas as ruas têm nome de homem Alongamento Ioga Capoeira Aquecimento Boi Saudade da filha Saudade da mãe Saudade Saudade Saudade Vazio Solidão Medo Memória Distância Terra Suor Isolamento Silêncio.

Se você é um ser humano com capacidade respiratória mediana e fez a leitura em voz alta com apenas uma respiração, é provável que esteja se sentindo ofegante agora. Perceba como essa sensação reverbera em seu corpo. Nesse momento você, conscientemente ou não, já deve estar reestabilizando seu fluxo respiratório. Mesmo vivendo em uma cidade onde o pó preto – vulgo minério da Arcelor já é oficialmente parte integrante da composição do ar, a sensação de retorno a um fluxo respiratório estável continua sendo boa, certo? Ana e Mirela talvez não se recordem mais dessa sensação. Ana e Mirela estão sempre ofegantes. Na cadeia ofegante deixou há tempo de ser adjetivo para se tornar verbo. Verbo condenado a prisão perpétua no modo presente do indicativo. É isso que Ana e Mirela sentem na cadeia. E é provocando essa sensação de sufocamento que Carla e Alê iniciam a montagem, ali, dentro o túnel que suas personagens estão escavando para fugir. Onde falta ar, o que contraditoriamente está longe de parecer o essencial, já que falamos de duas mulheres privadas de muito mais além de oxigênio e liberdade.

Resgato então as vidas de Ana e Mirela e a sucessão de privações que as levaram até ali. De imediato penso em como vamos nos acostumando quase sem perceber a ter cada vez menos ar, cada vez menos respiro, cada vez menos espaço. Nosso corpo se adapta ou nos engana? Quando nos demos conta já estamos ofegantes. Mas como eu cheguei até aqui? Até que nos vemos obrigadas a abrir espaço. Cavar túneis. Ir em busca de ar. Respiradores artificiais não existem por aqui.

As palavras que você leu no parágrafo anterior são parte de tudo que vimos/falamos/ouvimos no encontro de quarta feira, 14 de julho, antes do ensaio de fato começar. Nossas tardes sempre começam com muita conversa e isso parece ser uma das únicas coisas das quais não queremos fugir nesse processo. Mesmo sem música, Carla e Alê investem em um aquecimento a partir da capoeira, que junto com a ioga já integra o processo de preparação das atrizes e de construção das personagens. Para mim, são como dispositivos que transferem para as personagens toda cumplicidade já existente entre as atrizes. A capoeira conduz essa “troca”, como se quase magicamente o jogo começasse entre Alê e Carla e terminasse entre Ana e Mirela. Quase sempre funciona… quase! Nesse dia tivemos corpos indispostos, que resistem não por teimosia, mas por cansaço. Bota linóleo. Tira linóleo. Para esse trabalho melhor assim, diz Carla. Pés e corpos no chão, ao trabalho!

Começamos o ensaio pela primeira cena. Quer dizer, pela primeira cena conforme ordenação feita pela dramaturga. O texto permite uma certa inversão entre a ordem dos acontecimentos. Tudo indica que a montagem siga por esse caminho. Mas por enquanto é isso: quando falo de primeira cena estou me referindo a cena inicial conforme apresentada no texto. Ana e Mirela estão no túnel, sentadas de costas e com respiração ofegante. Cansaço visível. Elas saem do túnel e iniciam um diálogo que perpassa por questões como a preocupação de uma com a alimentação da outra, e a necessidade de manter a “saúde” para o dia da fuga. Cansaço agora verbalizado. Ao repetir a cena algumas vezes as questões levantadas são: necessidade de não vitimizar excessivamente as personagens para que a narrativa não fique cansativa. Nesse momento, também se prioriza o cuidado com a relação das atrizes com o espaço, e não ainda com a ocupação do espaço como um todo. Além disso reforçamos a ideia de que as atrizes não precisam se olhar tanto durante o diálogo, com exceção dos momentos onde tal ato for necessário. Nos parece que em presídios os olhares estão quase sempre baixos. Olhar nos olhos é gesto que se guarda para “ocasiões especiais”, como roupa de missa que só pode ser usada quando se vai encontrar Deus. Deus não é visita muito comum onde Ana e Mirela estão. Talvez por isso lhes falte olhar.

As atrizes retornam para a posição inicial e retomam a respiração ofegante, como forma de transição para a próxima cena, onde Ana escreve uma carta para sua mãe. Nessa montagem, seu texto é intercalado com textos da cena seguinte, onde Mirela, escondida, faz uma ligação pelo celular. Aqui, uma das questões é encontrar formas para que as atrizes compartilhem os textos com todo público, que provavelmente estará distribuído em três dos quatro lados do espaço.

Fim da cena. Retomada das respirações, que serão um código de transição entre todas as cenas do espetáculo. Agora demos um salto na dramaturgia original e chegamos na cena onde Mirela confidencia um sonho para Ana. A partir do movimento a fala da atriz deve disparar, e não o contrário. Construções aparentemente simples mas que se tornam orgânicas apenas a partir do momento em que as respirações também se tornarem. Isso nos lembra que estamos em processo, a caminho. Ainda vamos chegar! Aqui se estabelece uma relação de cumplicidade que prepara o espaço pra cena seguinte, onde Ana relata o crime que cometeu. Ana caminha em círculos em torno de Mirela, que pontua o relato de Ana com comentários em sua defesa sempre que ela tenta se culpabilizar. Ana aqui me parece um misto de reflexão, culpa e apatia.

Finalizamos pensando na importância da utilização de tempos dilatados como dispositivo para inserir o público em um outro lugar. Tal elaboração está em consonância com a percepção do tempo nos presídios, que parece correr mais lento que o tempo “aqui fora”. Essa construção temporal na encenação diz sobre a história tanto quanto o próprio texto. E nos últimos instantes do encontro, cujo tempo corre em ritmo inverso ao proposto pela encenação, pensamos um pouco sobre o espaço cênico. Onde fica o público? Por onde o público entra? O que acontece nesse trajeto? Como o cenário pode contribuir com essa sensação de encarceramento? E o distanciamento? Fomos embora com poucas definições concretas e muitas propostas na cabeça. Creio que não caiba coloca-las aqui, já que não pretendo dar spoiler sobre a construção espacial de um espetáculo que ainda não estreou. Ou talvez ninguém do lado de cá ainda saiba exatamente como será. Talvez a resposta venha no próximo protocolo. Ou talvez você só descubra quando vier assistir ao espetáculo.

Depois de uma semana e meia parados, conseguimos nesse encontro nos dar conta de até onde chegamos. A agenda de ensaios foi mais uma vez “interrompida” por um feriado e uma sexta feira onde as atrizes se dedicaram a trabalhar o texto individualmente, sem a presença de todo coletivo que tem acompanhado o processo de montagem. De modo que esse protocolo trata dos encontros de duas quartas feiras, dias 14 e 21 de junho.

No dia 21 recebemos mais uma visita. Não lembro o nome da moça, espero que ela me perdoe já que assumiu também não ser boa com nomes. Camila leu seu protocolo e mais uma vez se instaurou a “energia reflexiva pós protocolos”, que nos visita religiosamente a cada leitura. Conversamos sobre Exu, Iansã, Shiva e outras divindades. Após o aquecimento das atrizes houve um exercício de leitura do texto da cena referente ao relato do crime da Mirela. Discutimos a necessidade de manter a rubrica indicada na cena. Mais uma vez somos pegos por reflexões sobre um processo onde a dramaturga participa da montagem como atriz e até que ponto isso influencia nas decisões tomadas na encenação.

Encerramos o encontro trabalhando novamente a cena onde Ana narra seu crime. Lembramos da necessidade de Alê crescer em intensidade a medida em que avança com o texto. Mantendo o deslocamento circular, a direção propõe que Carla gire junto com a espiral criada por Alê no decorrer do texto e que as duas estejam novamente juntas ao final da oração que entrecorta a narrativa. Juntas novamente, seria possível retomar o jogo de respirações que deve anteceder a cena seguinte. A direção atenta para que Carla resgate o tom mais grave para fala de Mirela e Alê cuide para que, ao iniciar o texto, o movimento conduza a fala ao invés do contrário, de modo a garantir que a cena se apresente de maneira mais orgânica. Experimentamos algumas repetições e sugestões de encaixes para os corpos, mas ainda é necessário experimentar, encontrar os elos para que esses corpos exaustos e ofegantes escorreguem, desabem um através do outro. As cenas dos crimes são densas, necessitam dessa energia de esgotamento. Duas mulheres cansadas. Dois crimes. Um túnel por cavar. Esgotamento não as falta, o que falta é ar. Para que o essencial um dia não falte, elas seguem cavando. Mesmo ofegantes, seguimos cavando. Até o dia em que gritar pelo essencial não seja mais necessário.